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Jogo responsável 4 min de leitura

Canalização é a régua: o Brasil comparado aos principais mercados regulados do mundo

Quase metade do que se aposta no Brasil ainda corre fora do ambiente regulado, cinco vezes o patamar de Reino Unido, Itália e Dinamarca.

Rodrigo YukioFounder & CRO (Chief Revenue Officer)

São Paulo, Brasil

Fileira de catracas de estação de metrô vista de frente, com os corredores de passagem vazios.
Toda catraca conta quem passa. O problema do mercado brasileiro é a fração que entra por onde não existe catraca.

O mercado regulado brasileiro fechou o primeiro semestre de 2026 com R$ 20,07 bilhões de GGR, alta de 15,3% sobre o mesmo período de 2025. São 30,9 milhões de CPFs únicos, 87 operadoras autorizadas e 188 marcas em operação. Em volume, o Brasil já joga na primeira divisão.

Em maturidade, ainda não.

A métrica que os reguladores maduros usam para avaliar a si mesmos não é tamanho de mercado nem arrecadação. É a canalização: qual fatia do que se aposta no país corre dentro do ambiente regulado. E é nesse indicador que a distância aparece.

41% ainda estão fora

O estudo Fora do Radar 2.0, elaborado pela LCA Consultoria Econômica a pedido do IBJR e publicado em agosto de 2026, estima que o mercado ilegal responde por 38% a 44% do setor brasileiro de apostas, sendo 41% o cenário base. A estimativa vem do cruzamento entre uma pesquisa do Instituto Locomotiva, com 2.291 entrevistas com apostadores adultos em maio de 2026 e margem de 2,1 pontos percentuais, e a intensidade declarada de uso de plataformas com indícios de informalidade.

Há uma boa notícia embutida. Em 2025, o mesmo exercício apontava 41% a 51%, com base em 46%. A queda de 5 pontos percentuais em um ano é real e mede o efeito das medidas adotadas desde então.

Ainda assim, o Brasil segue muito acima dos mercados de referência. Os dados da IBIA para a participação do mercado não regulado colocam a régua no lugar:

Jurisdição Mercado não regulado
Irlanda 3%
Suécia 6%
Reino Unido 8%
Dinamarca 9%
Itália 10%
Espanha 14%
Austrália 15%
Alemanha 23%
França 37%
Brasil 38% a 44%
Países Baixos 51%

Reino Unido, Dinamarca e Itália operam com menos de um décimo do volume fora da regra. O Brasil está em quatro décimos.

França e Países Baixos: o alerta que ninguém deveria ignorar

A leitura preguiçosa dessa tabela é que mercado antigo canaliza melhor. Os dois últimos nomes desmontam isso.

A França regula apostas online desde 2010 e tem 37% do volume fora. Os Países Baixos abriram o mercado em 2021 e estão em 51%, pior que o Brasil. Nos dois casos, o desenho regulatório restringiu tanto a oferta legal, com produtos vedados, tributação sobre o volume apostado na França, tetos de depósito e publicidade quase zerada na Holanda, que o apostador simplesmente atravessou a porta.

Não é uma tese ideológica. É o que a própria LCA registra ao citar Catarino et al. (2020): a proibição não extingue a atividade, apenas a desloca para onde não há fiscalização, autoexclusão nem garantia de pagamento de prêmio.

O que os mercados que canalizam bem fazem de diferente

Atacam a infraestrutura, não só o domínio. Bloquear site é enxugar gelo quando o operador troca de endereço em 48 horas. O que funciona é cortar pagamento, publicidade e fornecedor. O Reino Unido licencia o próprio provedor de software B2B. A Itália reorganizou o mercado em 2025 com 52 concessões de nove anos, uma marca por concessão e 7 milhões de euros de outorga, o que encareceu o custo de operar irregularmente na cadeia.

Regulam o fornecedor. Em praticamente todo mercado maduro existe uma camada independente entre o operador e o regulador, seja licença B2B, laboratório de testes credenciado ou entidade certificadora. O dado regulatório nunca fica inteiramente nas mãos de quem o produz. O Brasil construiu o SIGAP, mas ainda discute a regulação de fornecedores, que está na Agenda Regulatória 2026-2027 da SPA.

Calibram a carga tributária. Aqui vale o cuidado. A contribuição sobre o GGR no Brasil sobe de 12% para 13% em 2026 e chega a 15% em 2028, pela LC 224/2025, sem contar IRPJ, CSLL, PIS/Cofins e ISS. O Reino Unido acaba de elevar a remote gaming duty de 21% para 40% a partir de abril de 2026, com nova alíquota de 25% sobre apostas remotas em 2027. É um experimento em curso, e o mercado britânico tem 8% de fuga para gastar. O Brasil tem 41%. A margem de erro é bem menor.

O Brasil está andando, e dá para medir

A queda de 46% para 41% acompanha uma sequência clara de instrumentos: a Portaria SPA/MF 566/2025, que proibiu instituições financeiras de processar transações de operadores não autorizados; a LC 224/2025 e a Portaria MF 1.766/2026, que criaram responsabilização tributária solidária de intermediários e divulgadores; o Decreto 13.033/2026, que permite bloqueio cautelar de contas; e a Portaria Interministerial 73/2026, que vedou a divulgação de marcas e perfis de operadores ilegais.

No balanço de 2025, a SPA registrou 132 processos de fiscalização, 800 processos administrativos sancionadores, 412 procedimentos contra influenciadores digitais, 25 mil URLs bloqueadas e mais de 217 mil autoexclusões.

Há também um ativo que o debate público subestima: o apostador quer estar no mercado legal. Na pesquisa da Locomotiva, 77% consideram as bets ilegais mais perigosas pela ausência de regras de jogo responsável, e dois em cada três dizem que parariam de apostar numa plataforma ao descobrir que ela opera fora da regulação. O que falta, em boa medida, é informação e um jeito simples de verificar. O domínio .bet.br é isso.

A conclusão prática

Chegar a 10% de mercado ilegal, o patamar de Itália e Dinamarca, exigiria tirar mais 30 pontos percentuais do ilegal. Esse é o tamanho real do problema, e também o tamanho da oportunidade fiscal e de proteção ao consumidor.

Os dois caminhos que sobram são conhecidos. Um é apertar apenas quem já está dentro da regra, e França e Países Baixos mostram para onde isso leva. O outro é fazer o que Reino Unido, Itália e Dinamarca fizeram: fiscalização dura na infraestrutura do ilegal, regulação da cadeia de fornecedores e um ambiente legal em que compliance seja exigente, auditável e viável de operar.

Defender o mercado regulado não é defender as bets. É defender quem aposta. E, hoje, quase metade dessas pessoas está apostando num lugar onde ninguém responde por elas.


Fontes: LCA Consultoria Econômica e IBJR, Fora do Radar 2.0: Dimensionamento e combate do mercado ilegal de apostas no Brasil (agosto de 2026); Instituto Locomotiva (maio de 2026); IBIA, The Availability of Sports Betting Products (2024); SPA/MF, Panorama do setor e Agenda Regulatória 2026-2027; UK Gambling Commission e HM Treasury (Budget 2025); ADM (Itália); DGOJ (Espanha).